SANTA CATARINA EM FOCO – POLÍTICA CATARINENSE
PARA ENTENDER O QUE ROLA NA POLÍTICA DO ESTADO DE SC
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Foto: divulgação
ENTENDA AS FORÇAS, INSTITUIÇÕES E DISPUTAS QUE MOLDAM A POLÍTICA DE SANTA CATARINA

A política catarinense é resultado de uma combinação particular entre forças partidárias tradicionais, lideranças regionais, municípios politicamente influentes e mudanças no comportamento do eleitorado. Nas últimas décadas, Santa Catarina passou de um sistema marcado pela força de partidos tradicionais para um cenário em que o conservadorismo ganhou protagonismo e novas lideranças passaram a disputar espaço com grupos históricos.
Com 295 municípios, 40 deputados estaduais, 16 deputados federais e três representantes no Senado, Santa Catarina possui uma estrutura política fortemente descentralizada. Prefeitos, parlamentares, lideranças empresariais, cooperativas, entidades representativas e grupos políticos regionais exercem influência sobre as decisões tomadas em Florianópolis e em Brasília.
Entender a política do estado, portanto, exige olhar além do Palácio da Agronômica e da Assembleia Legislativa. O poder catarinense também passa pelas prefeituras, pelas câmaras municipais, pelas bancadas parlamentares e pelas diferenças econômicas e sociais entre as regiões.
A POLÍTICA CATARINENSE É MARCADA PELA FORÇA DAS REGIÕES
Uma das características mais importantes de Santa Catarina é a ausência de uma única metrópole capaz de concentrar, sozinha, a maior parte do poder econômico, populacional e político.
Florianópolis é a capital administrativa, mas Joinville é a maior cidade em população. Blumenau exerce forte influência no Vale do Itajaí, enquanto Chapecó funciona como uma das principais referências políticas e econômicas do Oeste. Itajaí, Criciúma, São José, Lages e outros centros regionais também possuem peso próprio.
Essa distribuição ajuda a explicar por que a política estadual é construída por meio de alianças territoriais. Um candidato ao governo precisa dialogar com realidades muito diferentes.
No Oeste, o agronegócio, as cooperativas e a agroindústria possuem grande relevância. No Norte e no Vale do Itajaí, indústria, logística e infraestrutura ocupam espaço central. No litoral, temas como mobilidade, turismo, crescimento urbano e desenvolvimento imobiliário ganham importância. No Sul e na Serra, setores produtivos e demandas históricas de infraestrutura também influenciam a agenda política.
As diferenças regionais não determinam automaticamente o voto, mas ajudam a formar bases eleitorais, prioridades administrativas e redes de liderança.
A HISTÓRIA POLÍTICA DE SANTA CATARINA PASSOU POR RUPTURAS
A política catarinense também foi moldada pelos grandes acontecimentos da história brasileira.
Após a Proclamação da República, Santa Catarina viveu conflitos como a Revolução Federalista e atravessou períodos de intervenção e centralização do poder.
Outro episódio marcante ocorreu em 1958, quando o governador Jorge Lacerda morreu em um acidente aéreo. Sua morte interrompeu uma trajetória de crescente projeção política e levou o vice-governador Heriberto Hülse a assumir o governo.
Durante a Era Vargas e o Estado Novo, a autonomia política dos estados foi afetada pelo processo de centralização nacional. A ditadura militar iniciada em 1964 também alterou o funcionamento das instituições e das eleições.
A retomada das eleições diretas para governador, em 1982, marcou uma nova fase. Esperidião Amin venceu aquele pleito e tornou-se uma das figuras mais longevas da política catarinense.
Com a Constituição de 1988, consolidou-se a estrutura democrática contemporânea, com eleições periódicas, fortalecimento dos órgãos de controle e redefinição das competências dos estados e municípios.
PARTIDOS TRADICIONAIS CONSTRUÍRAM A POLÍTICA DO ESTADO
Durante grande parte do período democrático recente, a política catarinense foi marcada pela presença de partidos como MDB, PFL — posteriormente DEM —, PP, PT e, mais tarde, PSD.
Entre as principais lideranças da história política recente estão Esperidião Amin, Luiz Henrique da Silveira, Jorge Bornhausen, Pedro Ivo Campos, Casildo Maldaner, Vilson Kleinübing, Raimundo Colombo e figuras ligadas ao Partido dos Trabalhadores, como Ideli Salvatti e Décio Lima.
A trajetória do governo estadual demonstra, porém, que Santa Catarina não viveu uma hegemonia prolongada de um único partido. Após a redemocratização, diferentes grupos se alternaram no poder.
Esperidião Amin foi eleito governador em 1982, na retomada das eleições diretas para os governos estaduais, e voltou ao cargo após vencer a eleição de 1998. Paulo Afonso Vieira, do então PMDB, venceu em 1994. Luiz Henrique da Silveira, também do PMDB, chegou ao governo em 2002 e foi reeleito em 2006. Raimundo Colombo, eleito pelo DEM em 2010, posteriormente ingressou no PSD e conquistou a reeleição em 2014.
Essa sequência revela uma característica histórica do estado: a capacidade de grandes lideranças regionais construírem alianças que frequentemente ultrapassam as fronteiras ideológicas e partidárias. Ao mesmo tempo, partidos que não chegaram ao comando do Executivo estadual, como o PT, mantiveram presença relevante na oposição, no Legislativo e em disputas municipais e nacionais.
ELEIÇÃO DE 2018 ALTEROU O EQUILÍBRIO DE FORÇAS
A eleição de 2018 representou uma das maiores rupturas da história recente da política catarinense. Carlos Moisés, então filiado ao PSL e até aquele momento sem trajetória relevante em cargos eletivos, chegou ao governo impulsionado pela onda eleitoral associada à candidatura presidencial de Jair Bolsonaro. Sua ascensão ocorreu em uma disputa que reunia nomes ligados a estruturas partidárias consolidadas no estado.
No primeiro turno, Gelson Merisio, do PSD, terminou na liderança, com 31,12% dos votos válidos. Moisés avançou ao segundo turno com 29,72%, deixando para trás, entre outros candidatos, Mauro Mariani, do MDB, partido com longa presença na política estadual, e Décio Lima, do PT.
A disputa final colocou frente a frente dois projetos que simbolizavam momentos distintos da política catarinense. De um lado estava Merisio, ex-presidente da Assembleia Legislativa e liderança do PSD, apoiado por uma ampla articulação partidária. Do outro, Moisés representava a força eleitoral emergente do PSL e o movimento político associado à ascensão de Bolsonaro.
No segundo turno, o cenário mudou de forma expressiva. Carlos Moisés venceu Gelson Merisio com 71,09% dos votos válidos. O resultado evidenciou a força da onda eleitoral de 2018 e enfraqueceu, naquele momento, a capacidade das estruturas partidárias tradicionais de controlar a sucessão estadual.
O impacto também chegou à Câmara dos Deputados. Naquele pleito, o PSL elegeu quatro deputados federais por Santa Catarina, consolidando o avanço de uma nova configuração política no estado.
O período seguinte, porém, mostrou que vitória eleitoral e capacidade de articulação institucional são fenômenos diferentes. O governo Moisés enfrentou crises políticas, dificuldades na relação com forças políticas e parlamentares e dois processos de impeachment. O governador chegou a ser afastado temporariamente, mas não foi definitivamente destituído do cargo.
ELEIÇÃO DE 2022 COLOCOU DIREITA E ESQUERDA FRENTE A FRENTE
Quatro anos depois da ruptura eleitoral de 2018, a eleição de 2022 confirmou a força do bolsonarismo em Santa Catarina, mas em uma nova configuração partidária.
Carlos Moisés buscou a reeleição, então filiado ao Republicanos, mas terminou o primeiro turno na terceira colocação e ficou fora da disputa final. Jorginho Mello, do PL, avançou ao segundo turno contra Décio Lima, do PT.
A eleição colocou frente a frente dois campos políticos claramente distintos. Jorginho Mello representava o PL e o campo político alinhado ao então presidente Jair Bolsonaro, enquanto Décio Lima representava o PT e o campo político ligado a Luiz Inácio Lula da Silva.
No segundo turno, Jorginho Mello venceu com 70,69% dos votos válidos, contra 29,31% de Décio Lima. O resultado levou o PL ao comando direto do Executivo estadual e confirmou a ampla vantagem eleitoral da direita bolsonarista na disputa pelo governo catarinense naquele ciclo.
A eleição também marcou uma mudança importante em relação a 2018. Enquanto Carlos Moisés havia chegado ao governo como um nome pouco conhecido e associado à onda eleitoral daquele momento, Jorginho Mello já possuía uma longa trajetória política, com passagens pela Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados e Senado.
A vitória de 2022, portanto, combinou a força do eleitorado conservador catarinense com a chegada ao governo de uma liderança experiente e inserida nas estruturas partidárias. O resultado consolidou o PL como uma das principais forças da política catarinense e abriu um novo ciclo de disputa pelo controle do estado.
CONSERVADORISMO AVANÇOU, MAS NÃO EXPLICA SOZINHO A POLÍTICA CATARINENSE
Santa Catarina consolidou-se como um dos principais redutos eleitorais da direita bolsonarista no país. Jair Bolsonaro recebeu 75,92% dos votos válidos no estado no segundo turno de 2018 e 69,27% em 2022. Os números demonstram a força desse campo político, mas não explicam, sozinhos, a diversidade do eleitorado catarinense.
A ascensão do bolsonarismo alterou o equilíbrio político a partir de 2018, impulsionando candidaturas e ampliando o espaço de pautas conservadoras. Ao mesmo tempo, partidos tradicionais como MDB, PSD e PP preservaram redes municipais, mandatos e lideranças, muitas vezes incorporando discursos e alianças associados à direita.
Também é necessário distinguir força eleitoral de hegemonia absoluta. O PT e outras forças de esquerda mantêm representação institucional e bases eleitorais próprias, apesar das dificuldades históricas nas disputas majoritárias estaduais e municipais.
Nos municípios, o cenário é ainda mais complexo. Alianças locais nem sempre reproduzem a polarização nacional, e partidos adversários em Brasília podem atuar próximos em determinadas cidades. Assim, o avanço do conservadorismo é central para compreender a política catarinense recente, mas convive com o regionalismo, o pragmatismo eleitoral e estruturas tradicionais de poder.
A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA É O CENTRO DO PODER LEGISLATIVO ESTADUAL

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina, a Alesc, é formada por 40 deputados estaduais eleitos para mandatos de quatro anos.
É na Alesc que são discutidos projetos de lei estaduais, propostas de emenda à Constituição de Santa Catarina, orçamento, políticas públicas e matérias encaminhadas pelo governo.
A Casa também exerce uma função de fiscalização do Poder Executivo. A dinâmica interna passa pela Mesa Diretora, pelas lideranças partidárias e pelas comissões permanentes. Projetos podem percorrer diferentes comissões antes de chegar ao plenário, dependendo do conteúdo e das exigências regimentais.
A presidência da Assembleia possui relevância política que ultrapassa a administração do Legislativo. O cargo participa da articulação entre os poderes e pode exercer influência sobre o ritmo de tramitação das matérias.
A relação entre governador e deputados é, por isso, uma das chaves para compreender qualquer governo estadual. Mesmo governadores eleitos com votação expressiva precisam construir apoio parlamentar para aprovar projetos estratégicos.
O GOVERNADOR COMANDA O EXECUTIVO, MAS O PODER É DISTRIBUÍDO
O governador é a principal autoridade do Poder Executivo estadual. Cabe ao governo administrar áreas como segurança pública, educação estadual, infraestrutura, sistema prisional e diferentes políticas públicas de competência do estado.
Na prática, entretanto, a governabilidade depende da relação com a Assembleia Legislativa, partidos, prefeitos e instituições de controle.
A distribuição de cargos, a formação do secretariado, a liberação de recursos, as emendas parlamentares e a definição de prioridades regionais fazem parte da dinâmica política cotidiana.
Em um estado territorialmente diverso como Santa Catarina, a relação com os municípios é especialmente relevante. Prefeitos podem funcionar como importantes cabos eleitorais e articuladores regionais, enquanto cidades de maior porte frequentemente projetam lideranças para disputas estaduais e federais.
PREFEITOS TÊM PAPEL CENTRAL NA CONSTRUÇÃO DE LIDERANÇAS
A política catarinense possui forte componente municipalista. Prefeitos administram serviços diretamente percebidos pela população e mantêm contato cotidiano com vereadores, empresários, associações e lideranças comunitárias. Por isso, administrações municipais bem avaliadas podem se transformar em plataformas para projetos políticos estaduais.
Por isso, Joinville, Florianópolis, Blumenau, Chapecó, Itajaí, São José, Criciúma e outras cidades estratégicas funcionam como importantes centros de formação de lideranças.
As eleições municipais também servem como um termômetro da força dos partidos. O número de prefeituras conquistadas, a presença nas câmaras de vereadores e o desempenho nas maiores cidades ajudam a indicar quais grupos chegam fortalecidos à eleição estadual seguinte.
O SENADO E A CÂMARA AMPLIAM A DISPUTA PELO PODER

Santa Catarina elege 16 deputados federais e três senadores. A bancada federal atua na elaboração de leis nacionais e na articulação de recursos e investimentos para o estado. Deputados e senadores também podem se transformar em candidatos ao governo, às prefeituras de grandes cidades ou a outros cargos majoritários.
A disputa pelo Senado possui características próprias. Como cada estado possui três senadores, independentemente do tamanho da população, a eleição para o cargo costuma mobilizar algumas das principais lideranças políticas estaduais.
Em anos eleitorais, a montagem das chapas para governador, vice-governador e Senado é uma das etapas mais complexas das negociações partidárias.
JUSTIÇA ELEITORAL ORGANIZA E FISCALIZA AS ELEIÇÕES
O Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina, o TRE-SC, integra a Justiça Eleitoral e desempenha papel central na organização dos pleitos no estado. Entre suas atribuições estão o julgamento de processos eleitorais, a análise de registros de candidaturas dentro de sua competência, a fiscalização das regras eleitorais e a administração do processo de votação em Santa Catarina.
As regras das eleições são nacionais. Isso significa que Santa Catarina segue a Constituição Federal, o Código Eleitoral, a Lei das Eleições, a Lei dos Partidos Políticos e as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral.
O financiamento das campanhas também obedece à legislação federal. Doações empresariais a candidatos e partidos são proibidas, enquanto campanhas podem receber recursos públicos e doações privadas dentro das regras estabelecidas pela legislação eleitoral.
MINISTÉRIO PÚBLICO E ÓRGÃOS DE CONTROLE GANHARAM PROTAGONISMO
A política catarinense também é acompanhada por uma ampla estrutura de fiscalização e controle.
O Ministério Público de Santa Catarina atua na defesa da ordem jurídica e pode investigar, denunciar e promover ações relacionadas a crimes contra a administração pública, entre outras atribuições.
O Tribunal de Contas do Estado fiscaliza a aplicação de recursos públicos e analisa contas e atos administrativos dentro de suas competências.
O Tribunal de Justiça de Santa Catarina, por sua vez, possui papel central no julgamento de processos que envolvem autoridades e administrações públicas, respeitadas as regras de competência estabelecidas pela legislação.
Nos últimos anos, operações de combate à corrupção ampliaram a atenção sobre a política municipal.
Um dos casos de maior repercussão foi a Operação Mensageiro, iniciada no final de 2022 e voltada à investigação de um esquema relacionado a contratos públicos municipais. Segundo balanço divulgado pelo Ministério Público de Santa Catarina, os desdobramentos da operação continuaram produzindo denúncias e condenações nos anos seguintes.
Entre abril de 2025 e abril de 2026, sete novas condenações somaram mais de 895 anos de penas privativas de liberdade, de acordo com o MPSC. O caso atingiu agentes públicos e empresários e se tornou uma das maiores investigações de corrupção municipal da história recente do estado.
ECONOMIA E INFRAESTRUTURA ESTÃO NO CENTRO DAS DISPUTAS
As características econômicas de Santa Catarina influenciam diretamente a agenda política. O estado possui uma economia diversificada, com forte presença da indústria, do agronegócio, dos serviços, da tecnologia, do turismo, dos portos e da logística. Por isso, temas como rodovias, ferrovias, portos, energia, incentivos fiscais, educação profissional, segurança pública e infraestrutura urbana aparecem de forma recorrente no debate político.
O Oeste pressiona por soluções relacionadas à produção agroindustrial e à logística. O Norte e o Vale do Itajaí possuem demandas ligadas à indústria e ao escoamento da produção. A Grande Florianópolis enfrenta desafios de mobilidade e crescimento urbano. O litoral convive com expansão populacional e pressão sobre infraestrutura.
A capacidade de transformar essas demandas regionais em uma agenda estadual é um dos principais desafios de qualquer governo.
ELEIÇÕES DE 2026 COLOCAM O ESTADO EM NOVO CICLO DE DISPUTAS
O ciclo eleitoral de 2026 tende a testar a força das mudanças iniciadas em 2018.
A disputa envolve não apenas o governo estadual, mas também duas vagas para o Senado, as 16 cadeiras catarinenses na Câmara dos Deputados e as 40 vagas da Assembleia Legislativa.
O cenário coloca em movimento o PL e o campo político ligado ao bolsonarismo, ao mesmo tempo em que partidos tradicionais buscam preservar ou ampliar suas bases. PSD, MDB, PP e outras forças com presença municipal continuam relevantes na construção das alianças.
À esquerda, o desafio permanece na ampliação da competitividade em um estado que, nas últimas eleições nacionais, apresentou forte votação para candidaturas de direita.
Até a formalização das candidaturas e coligações dentro do calendário eleitoral, pesquisas de intenção de voto representam apenas retratos de momentos específicos. Movimentos partidários, alianças, convenções e decisões nacionais ainda podem alterar o cenário.